O veredito que nos cabe
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Audiências nos tribunais costuma atrair todos os olhares. Ver figuras outrora intocáveis diante de um magistrado gera uma sensação de justiça que, embora necessária, é incompleta. É preciso encarar uma realidade pragmática: a Justiça pune o crime sob o rigor da lei, mas ela não tem o poder de depurar a vida pública. Essa tarefa — a de filtrar quem merece a confiança do povo — não pertence aos juízes, mas aos cidadãos.
O julgamento técnico-jurídico é apenas uma etapa de um processo muito mais amplo. Enquanto os tribunais se debruçam sobre provas, prazos e códigos, o julgamento político deve ser contínuo. A corrupção não nasce no vácuo; ela se alimenta da nossa desatenção e, principalmente, da nossa amnésia coletiva. De nada serve a condenação de hoje se o sistema permite que as mesmas práticas se repitam amanhã, sob novos nomes ou velhas promessas.
A memória eleitoral é a nossa ferramenta mais afiada. É comum que o clamor por ética se perca no ciclo de quatro anos, diluído por conveniências de momento ou por projetos assistencialistas que mascaram o desvio de recursos. Punir a má conduta nas urnas é o primeiro — e talvez o mais eficaz — mecanismo de controle social. Sem a sanção do voto, o político julgado corrupto entende que o crime é um risco calculado que vale a pena correr, desde que a imagem seja reconstruída a tempo da próxima campanha.
No entanto, a conscientização não pode ser apenas punitiva; ela precisa ser estrutural. Precisamos exigir reformas que diminuam as janelas de oportunidade para o ilícito. Menos burocracia opaca, mais transparência digital e sistemas de fiscalização que não dependam da boa vontade de quem está no poder. O voto consciente deve carregar consigo a exigência por um sistema que se proteja de seus próprios operadores.
Não esperemos que as sentenças judiciais resolvam todos os nossos males éticos. A Justiça pode limpar as manchas do passado, mas só o eleitor pode garantir o asseio do futuro. Quando o cidadão compreende que o seu voto é o primeiro e mais importante julgamento, a corrupção deixa de ser uma fatalidade do destino para se tornar uma escolha que não estamos mais dispostos a tolerar.