Mauro Picini Sociedade+Saúde 04/11/2020

No Dia Nacional do Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo

 

Os portadores de nanismo precisam superar barreiras que são impostas pela sociedade e enfrentar a discriminação diariamente. Desde 2017, uma data marca essa luta: 25 de outubro, Dia Nacional do Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo.
Se nas ruas eles sofrem com o preconceito, no mercado de trabalho não seria diferente. Enrico Fróes Rodrigues, de 41 anos, enfrentou tudo isso e se destacou no mundo corporativo. Ele ocupou diversos cargos de liderança em grandes empresas. Atualmente, é consultor financeiro.
“Há poucos meses, dei início a minha própria consultoria, após trabalhar no mundo corporativo desde 2001. Passei por grandes empresas nacionais e multinacionais. Comecei como estagiário na IBM, onde trabalhei por oito anos na área financeira; fui Tesoureiro Corporativo de grandes empresas e a minha última posição foi de “Controller Americas” em uma empresa Holandesa do setor de engenharia para prestadores de serviços marítimos. Era responsável pelo acompanhamento financeiro das operações do Uruguay, Colombia, Brasil e EUA”, conta Enrico.
Mas nem tudo foram flores na trajetória profissional de Enrico. Ele foi discriminado em uma entrevista de emprego e até alvo de piadas de mau gosto.
“Logo no início da carreira, fui fazer uma entrevista para um estágio. Ao chegar na recepção da empresa, tinham duas secretárias que, ao me verem, tiveram uma crise de risos. Uma delas se levantou e saiu rapidamente. A segunda pediu meu nome, etc, mas eu a agradeci e saí.  Não fiz a entrevista. Era muito novo e, hoje, certamente conduziria de outra forma.”
“Vivi um outro caso bastante interessante que consegui reverter e o colaborador virou um grande amigo. Nesta ocasião, eu pedi demissão na empresa onde estava trabalhando, mas não abri para qual empresa eu iria. Na minha última semana de trabalho (na empresa antiga) uma das pessoas da equipe me disse que já sabia para qual empresa eu iria e me mostrou um post em uma mídia social, onde um rapaz, que ficaria sob a minha gestão mencionou: “(…) vão trocar o meu chefe: um maluco por um anão!!”. Levei isso como um desafio e, nos primeiros dias nesta nova empresa, conversando individualmente com cada uma das 10 pessoas da equipe, ao me reunir com este rapaz, contei bastante sobre a minha história de vida, enfatizando diversos aspectos e não só o lado profissional. Foi uma experiência bem legal, pois a forma pela qual eu conduzi a conversa fez com que ele passasse a me respeitar, se aproximar e, com o tempo, ficamos bastante amigos”.
Enrico acredita que cada tipo de deficiência tem a sua dificuldade ou peculiaridade no mundo corporativo. O principal desafio para os portadores de nanismo, segundo ele, é lidar com as brincadeiras e as reações dos colegas.
“Para o nanismo, eu acho que o principal momento é o primeiro contato com os seus colegas de trabalho. A reação das pessoas varia ao te ver pela primeira vez e é neste momento que pode existir alguma piada, risada ou constrangimento. É importante manter a postura profissional, não permitir brincadeiras de mau gosto ou pejorativas, entretanto saber aceitar também, quando houver uma brincadeira criativa, engraçada, mas de bom gosto e sem ser de forma agressiva”.
A acessibilidade é outro desafio. Todos são iguais perante a lei. Entretanto, os portadores de nanismo passam por muitos percalços. Quando morava em Niterói e trabalhava no Rio, Enrico, muitas vezes, precisava de ajuda para embarcar e desembarcar das barcas.
“Por incrível que pareça, as maiores dificuldades são observadas no trajeto de ida e volta para o trabalho, pois os transportes coletivos, como ônibus e barcas, não estão 100% preparados. Por centenas de vezes, o desnível entre a barca e o deck onde ela atracava fazia com que eu precisasse recorrer a ajuda para poder embarcar. Há poucos anos, eles colocaram uma rampa para reduzir este desnível e dar autonomia para que, quaisquer pessoas, deficientes físicas ou com dificuldade de locomoção, pudesse embarcar mais facilmente. Outro exemplo que ouço reclamarem bastante é sobre a altura entre o chão e o degrau do ônibus e ainda sobre a altura onde fica o leitor do cartão de vale transporte”.
De acordo com o consultor financeiro, a acessibilidade nas empresas varia bastante de uma para a outra, mas é comum que os RH’s se preocupem em receber bem um colaborador que precise de alguma adaptação: “No meu caso, apenas o apoio para os pés. Existem outras adaptações mais complexas, mas percebo que os recursos humanos vêm se preocupando e se envolvendo cada vez mais”, sinaliza. 

Inclusão no mercado de trabalho e na sociedade das pessoas com nanismo

O conceito de ESG (Environmental, Social, and Governance) veio para ficar e vem sendo muito debatido, além de estar provocando grandes mudanças nas empresas, segundo Enrico.
“Sob a ótica de PCD (Pessoas com Deficiência), onde o nanismo está enquadrado, vejo que as empresas estão buscando se tornar atrativas a estas pessoas. Trata-se de uma mudança de postura relevante, pois ao invés de buscarem PCD’s para cumprirem a legislação, tal adequação se torna uma consequência deste novo posicionamento. Há estudos publicados demonstrando impacto financeiro positivo relacionados à inclusão. A pessoa com nanismo ou qualquer outro tipo de deficiência física passa não só a buscar salário, benefício, mas a observar claramente estas questões. Além disso, as empresas que aderem aos conceitos de ESG, são cada vez mais bem vistas pelos investidores, pela população de sua região e seus stakeholders”.
Ele enfatiza que, ao olharmos para a relação empresa e colaborador PCD, temos que atentar para o fator Capacitismo x Vitimização.
“O papel da empresa é oferecer todas as condições para que a pessoa com nanismo ou qualquer outra deficiência esteja apta a desempenhar seu trabalho assim como qualquer outro profissional. A partir daí, cabe ao PCD produzir e performar, sem qualquer distinção, em linha com o seu cargo e com a expectativa da empresa. Ele deve estar atento para que, ao receber um feedback negativo ou uma avaliação mais crítica, não leve de forma persecutória, achando que a sua condição física é o fato gerador de tal episódio. Não cabe à empresa e tão pouco ao colaborador PCD gerarem uma relação de exceção, ao se olhar estritamente para o desempenho profissional, considerando que esta pessoa está totalmente apta, com todas as ferramentas providas pela companhia para que ela desempenhe o seu trabalho da melhor forma possível”. 
Enrico tem uma percepção otimista sobre inclusão. 
“Apesar de ter muito ainda a ser feito, a “estrada” já está em construção e tem muita gente trabalhando conjuntamente para isso”, finaliza.

 

Mulheres e pandemia

Deisily de Quadros

 

O ano de 2020 teve um início como muitos outros: esperança de um tempo melhor, os mais supersticiosos vestindo essa ou aquela cor para dar sorte, lentilha e uvas para ter uma mesa farta no novo ano, “adeus ano velho, feliz ano novo” cantarolado por alguns.
O que não esperávamos, era a chegada de uma pandemia. Com ela, nossa rotina mudou, sentimentos como medo e ansiedade passaram a habitar o espírito, a saudade do abraço divide espaço com o cuidado com aqueles que amamos. Palavras até então desconhecidas ou esquecidas passaram a fazer parte do nosso vocabulário: pandemia, covid-19, home office, ensino remoto, testar positivo.
Foram muitas mudanças em um curto período de tempo, sem dúvida. Mas, ademais das alterações na rotina e no vocabulário, a pandemia veio nos mostrar as desigualdades que, mais do que nunca, gritam de forma aguda e insistente, enfatizando que estão ali, diante dos nossos olhos, que parecem se acostumar a vê-las, deixando de reparar que existem.
As pesquisas nos mostram que quem é mais afetado pela doença são as pessoas mais pobres, que não têm condições de manter o distanciamento social e, muitas vezes, nem mesmo a higiene e os cuidados necessários para manter o coronavírus distante. Nos Estados Unidos, dados mostraram que a população negra foi a mais atingida. Por quê? Porque os negros têm menos condições de acesso aos cuidados necessários e tratamento.
Vemos claramente o fator econômico interferindo quando tratamos da pandemia. Mas, quero chamar atenção aqui para outro aspecto: o de gênero. A desigualdade que ainda temos entre homens e mulheres foi também denunciada pela pandemia.
Com a mudança da rotina, veio a sobrecarga – sim, ela já existia, mas se acentuou. Conciliar o trabalho – seja home office ou presencial – com a organização da casa e o ensino remoto dos filhos tornou-se um grande desafio. Limpar a casa, fazer a comida, lavar, passar, organizar, acompanhar as aulas e tarefas escolares dos filhos e ainda produzir no trabalho. E há divisão dessas tarefas entre o homem e a mulher?
Infelizmente, o que os dados apontam é que não. E é preciso ficar claro que “ajudar” não é o mesmo que “dividir” as tarefas e responsabilidades que são essenciais, mas também não pagas e, por isso, invisíveis. A divisão sexual do trabalho é historicamente utilizada no processo de subjugação da mulher aos interesses da sociedade com olhar predominantemente masculino. Somos ensinados e condicionados, de geração a geração, a perpetuar a sociedade patriarcal em que as tarefas domésticas e a educação dos filhos é papel exclusivo da mulher. O homem ajuda, mas não compartilha, não divide.
A pandemia veio reforçar esses estigmas historicamente construídos e afirmados por gerações. Segundo Nara Carvalho, vice coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos e professora do departamento de Direito da UFJF-GV, pela divisão sexual do trabalho, há funções tidas como femininas, especialmente relacionadas a afazeres domésticos (por vezes sequer percebidos socialmente como pertencentes à categoria trabalho), e a profissões voltadas ao cuidado com o outro (num desdobramento das funções supostamente naturais de esposa, mãe e dona de casa). À mulher, cabe servir, devendo ser especialmente devota à família e filhos, em um processo que a aproxima do estatuto de propriedade – mulher é mais objeto dos seus do que sujeito de si mesma. Isso, sem mencionar a violência doméstica contra mulheres, que, conforme apontam as pesquisas, aumentou muito neste período de isolamento social.
É necessário, portanto, ficarmos atentos a essas questões, para uma melhor distribuição das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, e não somente durante a pandemia. A ONU, no objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, prevê alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas do mundo até 2030. Mas, como podemos observar, temos, ainda, um longo caminho pela frente.
Autora: Deisily de Quadros é professora da área de Linguagens e Sociedade da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.