Hospital Bom Jesus se destaca pelo acolhimento às famílias na doação de órgãos
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Entre despedidas silenciosas e gestos de amor que atravessam o tempo, a doação de órgãos nasce como um último ato de generosidade. No Brasil, cerca de 45% das famílias dizem “sim” a essa escolha que transforma perdas em novos começos.
No Paraná, esse índice sobe para 70%, revelando uma cultura cada vez mais solidária. Em Toledo, a Associação Beneficente de Saúde do Oeste do Paraná (Hoesp), mantenedora Hospital Bom Jesus, a empatia caminha com o cuidado, a aceitação alcança 94% nos últimos dez anos. Em meio a uma média de 57 óbitos por mês e aproximadamente 25 protocolos anuais de morte encefálica – nem todos viáveis para doação -, são raras as vezes em que as famílias não concordam. Porque quando o amor encontra informação e acolhimento, ele escolhe continuar vivendo em alguém.
A neurocirurgiã Dra. Kelly Bordignon e o coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) da Hoesp enfermeiro Itamar Weiwanko participaram do podcast do JO Algo a Mais com a editora Bruna Manfroi. O diálogo aconteceu na manhã de quarta-feira (21) nos estúdios do periódico.
Segundo a neurocirurgiã, as patologias que podem levar à morte encefálica são diversas e não se limitam a única causa. Acidente Vascular Cerebral (AVC), infecções graves e paradas cardiorrespiratórias com consequente perda de oxigenação cerebral estão entre os principais quadros que podem evoluir para esse diagnóstico.
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A médica explica que, diante da suspeita de morte encefálica, a equipe de saúde segue protocolos rigorosos para confirmar o diagnóstico. Somente após a confirmação é avaliada a possibilidade do paciente ser candidato à doação de órgãos.
Ela complementa que nem todos os casos, no entanto, são considerados viáveis. “Condições como infecções graves, HIV, sepse (infecção generalizada) e histórico de câncer podem contraindicar a doação, sempre de acordo com critérios médicos e de segurança estabelecidos por protocolos nacionais”.
O processo, reforça a especialista, é conduzido com extrema cautela, ética e respeito à vida, garantindo tanto a precisão do diagnóstico quanto a segurança dos possíveis receptores. “Quando há suspeita de morte encefálica, a equipe médica realiza todos os exames e testes rigorosos previstos em protocolo. Mas o objetivo é sempre evitar esse desfecho. Somente após a confirmação, feita de forma criteriosa, o diagnóstico é oficialmente estabelecido”.
A médica relata que a comunicação do resultado é feita pela equipe médica, que explica à família que houve a morte encefálica (condição que, do ponto de vista médico e legal, é considerada óbito). “Nesse momento, os profissionais esclarecem que, embora o coração ainda esteja batendo com o auxílio de aparelhos, o cérebro, responsável por comandar todas as funções do corpo, deixou de funcionar de forma irreversível”.
Kelly pontua que com a morte do cérebro, o organismo pode manter apenas uma autonomia temporária, sustentada por suporte artificial. Ainda assim, o óbito já está declarado. Após essa etapa, outra equipe especializada pode ser acionada para conduzir os próximos procedimentos, sempre com respeito, transparência e acolhimento aos familiares.
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REFERÊNCIA – O Hospital Bom Jesus, que há 54 anos atende a população de Toledo e região, desempenha um papel fundamental no processo de doação de órgãos. De acordo com o coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) enfermeiro Itamar Weiwanko, a equipe médica do hospital realiza, em média, cerca de 25 protocolos de doação por ano. Ela segue rigorosamente a legislação vigente estabelecida pelo Sistema Nacional de Transplantes.
Segundo Itamar, o processo é conduzido com acolhimento e transparência junto às famílias. “A equipe sinaliza todas as situações que serão adotadas e as etapas que precisam ser concluídas. As informações são repassadas à Central Estadual de Transplantes, que avalia o perfil do doador em conjunto com a equipe do HBJ e define quais órgãos poderão ser ofertados ao sistema estadual”, explica.
Após essa validação, ocorre a captação e a distribuição dos órgãos, prioritariamente dentro do Paraná. “Quando não há receptores aptos no estado, os órgãos são encaminhados para outros estados do país, conforme os critérios estabelecidos pelo sistema nacional”, menciona Itamar.
O coordenador destaca que o início da conversa com a família só acontece após a conclusão do protocolo de morte encefálica. “Existe um protocolo que precisa ser finalizado. Somente depois dialogamos com a família sobre a possibilidade da doação de órgãos, respeitando a decisão de aceite ou não”, afirma.
Itamar reforça que esse momento é decisivo, pois representa a chance de salvar outras vidas. Atualmente, mais de cinco mil pessoas aguardam por um órgão em todo o país. Segundo ele, a fila de espera, que aumentou no período pós-pandemia, cresce em ritmo mais acelerado do que o número de doações, o que torna a situação preocupante. “A informação à família é essencial. É nesse último ato que surge a possibilidade de iniciar o processo de doação e oferecer uma nova chance de vida para quem está esperando”.
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COMPLEXIIDADE – A doação de órgãos e tecidos é um processo complexo, mas capaz de transformar e salvar muitas vidas. Essa é a avaliação da neurocirurgiã Kelly e do coordenador da CIHDOTT Itamar.
No último final de semana, duas captações realizadas no hospital resultaram no benefício direto a 15 pessoas em um intervalo de apenas 12 horas, por meio da doação de órgãos e tecidos.
Conforme Itamar, o coração é um dos exemplos da complexidade e da amplitude do processo. “O coração pode ser transplantado de duas formas: como órgão ou como tecido. O órgão é encaminhado para Curitiba, enquanto as válvulas cardíacas podem beneficiar até quatro pacientes diferentes”, explica.
Outro destaque é a doação de ossos, que possui um alto potencial de impacto. De acordo com o coordenador, esse tipo de doação pode ajudar até 40 pessoas. Os tecidos ósseos são encaminhados para um banco especializado em São Paulo.
Itamar reforça que o sistema brasileiro de transplantes é extremamente seguro. “No Brasil, se há um sistema que funciona de forma correta é o de transplantes. Não há possibilidade de burla ou fraude, pois todo o processo, desde o diagnóstico até as medicações, é realizado exclusivamente pela rede pública”, afirma.
O coordenador também ressalta que o avanço científico tem ampliado as possibilidades. Pesquisas já avaliam, por exemplo, a viabilidade do transplante de intestino.
A neurocirurgiã Kelly complementa que o Brasil vem amadurecendo em relação à doação de órgãos. “Felizmente, vivemos um momento de maior conscientização. É o momento das doações”, destaca.
ESCLARECIMENTOS – O principal desafio enfrentado pelas equipes envolvidas no processo de doação de órgãos é o esclarecimento das famílias sobre todas as etapas do procedimento. Enquanto alguns familiares já possuem informações prévias e compreendem o protocolo, o que facilita a decisão, a maioria ainda desconhece como funciona o processo.
De acordo com o coordenador da CIHDOTT, no protocolo realizado no último domingo, a família já estava esclarecida, o que resultou em um desfecho favorável para a doação. No entanto, essa não é a realidade da maioria dos casos.
“O desconhecimento do protocolo ainda é muito comum. Por isso, precisamos estar preparados para orientar, esclarecer e acolher as famílias em um momento extremamente delicado”, explica Itamar.
Outro fator determinante é o tempo. Segundo Itamar, existe um período limitado para que a captação dos órgãos ou tecidos seja realizada, o que exige sensibilidade e agilidade por parte da equipe. “Precisamos interpretar os sinais que a família nos transmite e atuar de forma transparente, profissional e ética”, afirma.
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Ele relata que não existe um tempo exato para que essa conversa aconteça. Em muitos casos, é necessário respeitar o momento da família para processar a informação e dialogar internamente sobre a possibilidade da doação. “Ao mesmo tempo, temos pouco tempo técnico disponível e precisamos deixar claro que quanto mais rápida for a decisão, melhor será a qualidade do órgão para o receptor”.
EMPATIA – A confirmação da morte encefálica é um dos momentos mais difíceis de serem compreendidos pelas famílias. Segundo a neurocirurgiã Kelly, apesar de o paciente estar em morte cerebral, outros órgãos continuam funcionando, o que torna o entendimento e a aceitação da situação ainda mais complexos para os familiares.
O coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes reforça que o corpo do doador é tratado com total respeito. “O corpo não fica deformado. São utilizadas próteses e todo o processo é fiscalizado para que a família possa realizar a despedida conforme a sua crença religiosa”, esclarece.
Itamar relata que, em alguns casos, os familiares informam que o ente querido havia manifestado em vida o desejo de não ser doador de órgãos. “Nós respeitamos essa decisão. Em determinadas situações, conseguimos reverter a negativa por meio do esclarecimento das dúvidas, sempre com muito respeito”, afirma.
A neurocirurgiã Kelly salienta que a equipe vivencia dois lados da mesma realidade. “Existe a dor daquela família que perde seu ente querido, uma visão extremamente dolorosa. Ao mesmo tempo, olhamos para outra família que aguarda por um órgão. É possível transformar essa dor em felicidade. O pensamento humanizado ajuda a tornar esse sofrimento mais acolhido”.
Itamar acrescenta que muitos familiares encontram conforto ao pensar que parte do ente querido continuará vivendo em outra pessoa. “O coração estará batendo em outro corpo. É um gesto nobre que traz calma. As famílias receptoras comemoram uma nova chance de vida. Nada é mais divino do que praticar a bondade ao próximo”, destaca.
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O coordenador reforça ainda a importância da confiança no sistema de transplantes. “A família precisa acreditar na seriedade do processo. Eu faço a minha parte com total responsabilidade. Quando existe seriedade, fica difícil não pensar nesse gesto de bondade”, afirma.
Por fim, Itamar ressalta que a medicina e a ciência ainda não possibilitam a substituição do cérebro. “Infelizmente, para aquela pessoa, a vida se encerrou. Por isso, é fundamental que as pessoas falem sobre a doação de órgãos. Nós temos uma dedicação especial, 24 horas por dia, no acolhimento familiar, compartilhando esse sentimento de perda de alguém que estava ali e se foi”, conclui.
Da Redação
TOLEDO