Economista de Toledo participará do COSEG da FIESP

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O economista, pesquisador, escritor e professor Pery Francisco Assis Shikida, docente da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Toledo desde 1992, é nomeado membro do Conselho Superior de Segurança (COSEG) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Ele concedeu entrevista a editora Bruna Manfroi no podcast Algo a Mais na semana passada.

Os Conselhos Superiores da FIESP são órgãos estratégicos voltados ao debate de temas relevantes ao desenvolvimento nacional, sendo a segurança pública uma das preocupações da indústria e da sociedade brasileira.

A nomeação do professor Pery Shikida representa o reconhecimento de sua trajetória acadêmica e de suas contribuições no campo da Economia do Crime, além de fortalecer a presença institucional da Unioeste em espaços qualificados de discussão e da formulação de políticas públicas.

A primeira reunião do COSEG, ocasião em que ocorrerá a instalação dos conselheiros, será realizada no dia 6 de fevereiro de 2026 nas dependências da FIESP. O COSEG é presidido pelo Senador Sergio Moro.

O economista Pery Shikida disse se sentir feliz e honrado com o convite. “É uma honra representar a nossa cidade, a nossa região e a Unioeste no Conselho”, afirma o professor ao complementar que São Paulo é a ‘locomotiva’ do Brasil em vários aspectos. “Tem o Conselho Superior de Segurança, do Agronegócio, da Educação e da Justiça”.

Durante a entrevista, Shikida menciona que estuda a Economia do Crime há 27 anos. “Eu sou economista rural. Os meus estudos em graduação, mestrado e doutorado estão relacionados a economia rural. Inclusive eu fui presidente da Sociedade de Economia e Sociologia Rural durante quatro anos. Pesquisar a economia do crime surge a partir de um acadêmico que estava finalizando os seus créditos na graduação”.

Ele recorda que dados foram buscados na cadeia pública na época. “Eu perguntei ao delegado sobre os dados de crimes, mas o município não tinha o registro de grandes assaltos. Naquele momento, haviam mais registros de furtos. Às vezes, algumas subnotificações, porque muitas pessoas não denunciavam o furto”.

O economista lembra ainda que o delegado comentou que os dados mais verdadeiros estavam com os detentos. “A partir daquele dia, nunca mais saí do sistema prisional. As pesquisas tiveram continuidade e visitei diversos presídios no Brasil. Fomos para o Rio Grande do Sul, Acre, São Paulo, Paraíba, Minas Gerais, Roraima, entre outros. Assim, os estudos foram acontecendo”.

E, o crime compensa? De acordo com Shikida, o crime econômico compensa. “Roubos e furtos visam o dinheiro e eles possuem consequências econômicas e não causas. A pesquisa começou na década de 90 e até hoje o resultado é estarrecedor. Atualmente, o questionário possui 102 perguntas e ele ainda tem avançado”.

O estudo aponta que, do ponto de vista econômico, a criminalidade pode ser financeiramente vantajosa no Brasil, revelando problemas estruturais em educação, punição e políticas públicas.

Ser criminoso no Brasil pode ser compensador do ponto de vista financeiro. Essa é a principal hipótese sustentada por uma linha de pesquisa baseada na ciência econômica, que analisa o crime como uma escolha racional: mesmo quando há prisão, os custos de migração para o crime tendem a ser menores do que os benefícios econômicos obtidos.

Conforme o professor, a economia, cada vez mais infiltrada em diversas áreas do conhecimento, oferece ferramentas para compreender esse fenômeno. A partir dessa perspectiva, pesquisadores iniciaram um estudo no interior do estado de São Paulo com o objetivo de investigar as causas que levam as pessoas à prisão e os fatores que contribuem para a reincidência criminal.

Segundo o pesquisador, compreender por qual motivo a pessoa está presa é essencial para formular políticas públicas mais eficazes. “É sensacional fazer pesquisa”, afirma ao destacar o papel da ciência para qualificar o debate e melhorar a tomada de decisões do Estado.

O economista complementa que os estudos incluem a aplicação de questionários a detentos. “Para garantir a confiabilidade dos dados, o instrumento conta com variáveis de controle capazes de identificar respostas inconsistentes. Caso o detento minta nessas variáveis, o questionário é descartado”.

Os resultados preliminares indicam relação entre criminalidade e falhas na educação. “A pesquisa mostra que quem não investe em educação muitas vezes não compreende o custo da ignorância. Embora o acesso à educação tenha se expandido nos últimos anos, a qualidade do ensino ficou aquém do necessário”, pontua o professor.

Outro ponto central revelado pelo estudo é a percepção de impunidade no país. “A porta da penitenciária não poderia ser uma grade, e sim, uma porta giratória”, afirma o pesquisador. No Brasil, segundo a análise, o sistema acaba tratando bem quem reincide, ao falhar em desestimular o retorno ao crime. O economista pontua que a pesquisa demonstra que muitos dos detentos ingressam ao mundo do crime por cobiça ou por ganância.

Conforme o pesquisador, o desafio do Estado é justamente alinhar políticas públicas que alterem essa equação econômica, tornando o crime menos atrativo e o investimento em educação e legalidade mais vantajoso para o indivíduo e para a sociedade. “Eu sou um pesquisador da economia do crime na área de segurança pública; os especialistas em segurança pública são as forças policiais.

PARADIGMAS – O pesquisador Pery destaca que estudos científicos têm sido fundamentais para derrubar paradigmas historicamente consolidados sobre o sistema prisional brasileiro. Segundo ele, as pesquisas mostram que pessoas que cometem crimes tendem a falar abertamente sobre suas trajetórias, ainda que muitas dessas falas não encontrem respaldo nas teorias tradicionais. “Derrubamos muitos paradigmas ao longo dos anos”, afirma.

Pery recorda ter participado de uma palestra em que um participante afirmou que o sistema prisional brasileiro é racista. No entanto, ele ressalta que os dados coletados em pesquisas apontam para um cenário mais complexo. “Nossos estudos demonstram que mais da metade da população carcerária é parda; em seguida vêm os brancos e, por último, os negros”, explica. O pesquisador reforça ainda que todas as pesquisas passam previamente pela avaliação do Conselho de Ética em Pesquisa antes mesmo de serem iniciadas.

Durante os levantamentos, os entrevistados também foram questionados sobre o que o Estado poderia ter feito para evitar sua entrada no mundo do crime. “As respostas apontaram – majoritariamente – para a necessidade de investimentos em educação, especialmente para pessoas com Ensino Médio incompleto ou menor escolaridade. Segundo os relatos, professores deveriam investir mais na formação educacional para que os indivíduos possam compreender e exercer seus direitos”.

Além da educação, políticas públicas voltadas ao lazer e ao esporte também foram citadas durante o estudo. De acordo com Pery, essa percepção foi confirmada na mais recente pesquisa realizada no estado de São Paulo, indicando que os próprios entrevistados reconhecem a importância dessas iniciativas.

Outro ponto abordado nas pesquisas foi a percepção sobre penalidades e sua eficácia na prevenção do crime. Ao serem questionados sobre o que os impediria de ingressar na criminalidade – independentemente de essas penas existirem ou não na Constituição Brasileira – muitos entrevistados mencionaram punições mais severas, como pena de morte, prisão perpétua e o cumprimento integral da pena sem possibilidade de remissão.

As respostas, segundo o pesquisador, foram induzidas propositalmente para incluir tanto penalidades previstas na Constituição quanto aquelas que não fazem parte do ordenamento jurídico brasileiro. “Ainda assim, os resultados chamaram atenção: mais de 40% dos entrevistados afirmaram que a pena de morte seria um fator decisivo para não cometer crimes, seguida pela prisão perpétua”. Para Pery, os dados revelam mais sobre a percepção de justiça e punição do que propriamente sobre a viabilidade legal dessas medidas.

AMOR BANDIDO – No podcast, o economista recorda outro fato que chamou a sua atenção durante a pesquisa no presidio. Ele conta que uma fila extensa de mulheres se forma nos dias de visita aos estabelecimentos prisionais masculinos. Mães, companheiras e esposas aguardam horas para manter o vínculo com homens privados de liberdade. Em contraste, a realidade nos presídios femininos é marcada pelo abandono: muitas mulheres presas deixam de receber visitas de familiares ou parceiros.

Segundo pesquisas citadas pelo pesquisador Pery, esse abandono atua como um fator que dificulta ainda mais a migração das mulheres para o mundo do crime. Ainda assim, quando ocorre, a entrada na criminalidade feminina está frequentemente associada ao chamado “amor bandido” – relacionamentos afetivos com homens envolvidos em atividades criminosas. Um percentual significativo das mulheres entrevistadas relatou ter se envolvido com o crime por influência direta de companheiros.

Além disso, o professor relata que as unidades prisionais femininas também apresentam características distintas das masculinas. De acordo com os estudos, os estabelecimentos destinados às mulheres costumam ser mais organizados e melhor estruturados, recebendo avaliações mais positivas em comparação às prisões masculinas.

Durante a pesquisa, os entrevistados foram convidados a definir, em apenas uma palavra, diferentes aspectos de suas vidas. Ao serem questionados sobre a própria vida, a maioria respondeu de forma positiva. No entanto, ao falar da família, o impacto emocional foi evidente: entre 408 entrevistados, cerca da metade chorou ao mencionar esse vínculo.

Outro exercício proposto foi a definição da pena em única palavra. Contrariando a percepção histórica do Judiciário (que acreditava que cerca de 90% dos presos se consideravam injustiçado); os dados revelaram um cenário diferente. Apenas 58% afirmaram que a pena era injusta, enquanto 42% declararam que a punição era justa e merecida.

“‘Só eu e o homem lá de cima que sabemos o que eu fiz’”, afirmou um dos entrevistados, em referência à responsabilidade pessoal pelo crime cometido. Para os pesquisadores, esse dado revela um nível significativo de consciência e autocrítica entre a população carcerária, desafiando estigmas e pressupostos sobre a percepção de culpa no sistema prisional brasileiro.

RELAÇÕES – O chamado mito do encarceramento em massa é outro ponto debatido. Para o pesquisador, não basta ampliar vagas ou endurecer penas: as penitenciárias precisam melhorar suas condições estruturais e humanas para que possam, de fato, reintegrar essas pessoas à sociedade com dignidade.

As pesquisas revelam que a trajetória de grande parte da população carcerária é marcada por fatores estruturais recorrentes, como baixo nível educacional, famílias fragilizadas e desagregadas e o enfraquecimento das referências religiosas e comunitárias. “Nesse contexto, a presença de profissionais como assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras é apontada como essencial para qualquer política séria de ressocialização”.

Ele acrescenta que a relação com a religião, no entanto, apresenta contradições. “Embora muitos presos se declarem praticantes, a vivência religiosa nem sempre se traduz em transformação efetiva do comportamento”.

Além disso, em um dos estudos mais sensíveis, quase 100 mulheres privadas de liberdade foram entrevistadas em diferentes dias e espaços. O pesquisador, mantendo a neutralidade ética exigida, questionou se elas haviam sofrido algum tipo de violência familiar. As respostas foram contundentes: muitas relataram ter sido vítimas de múltiplas formas de violência – física, patrimonial, financeira, sexual e psicológica -, frequentemente de maneira simultânea.

Os relatos emocionaram até quem tinha mais experiência. O professor relata que em um dos depoimentos, uma mulher, aos prantos, questionou como explicaria ao próprio filho que o avô dele é o pai? Também é recorrente a constatação de crimes cometidos pelo próprio pai contra a filha, uma realidade chocante, mas infelizmente frequente nos relatos.

O estudo também revelou perfis diversos entre as mulheres entrevistadas. Algumas apresentavam trajetórias marcadas exclusivamente pela vitimização; outras, por outro lado, ocupavam posições de destaque no tráfico de drogas, descritas como traficantes audazes, responsáveis por contratos e negociações no mundo do crime.

Durante uma das entrevistas, o pesquisador questionou também uma mulher por qual motivo, no universo criminoso, “a palavra não faz curva”. “A resposta veio de forma imediata e direta: “Pela mesma razão que a bala não faz curva”.

Para o pesquisador, compreender essas narrativas é fundamental para romper simplificações e construir políticas públicas que enfrentem as causas profundas da criminalidade.

NOVO ESTUDO – Um novo estudo sobre a economia do crime tem lançado luz sobre aspectos pouco debatidos, mas de grande interesse para a sociedade. A pesquisa incorpora perguntas inéditas e aborda temas sensíveis, como o contrabando de cigarros e medicamentos.

Entre os 408 entrevistados, cerca de 50 se autodeclararam “traficantes puro-sangue”, ou seja, indivíduos cuja atuação criminosa esteve exclusivamente ligada ao tráfico. “Os dados também revelam impactos profundos do crime nas relações pessoais: aproximadamente 60% dos participantes relataram ter vivido a dissolução de uma união conjugal”, diz o economista.

A pesquisa reforça a importância da educação, da escola, da família e da religião como “travas morais” capazes de conter a migração para o mundo do crime. “No entanto, o levantamento mostra que a maioria dos entrevistados possui baixa escolaridade, com poucos tendo concluído o Ensino Médio ou o Ensino Superior”.

Outro ponto central do estudo foi a percepção dos próprios delinquentes sobre a legalização das drogas. O perfil dos entrevistados favoráveis à legalização revelou três características principais: consumo pessoal da substância, envolvimento direto na negociação e defesa do mercado, além da posse ou porte de armas. Segundo o pesquisador, trata-se de um tema polêmico até mesmo entre os criminosos, o que faz com que muitos evitem se posicionar abertamente.

Para o professor, o enfrentamento da criminalidade deve ocorrer prioritariamente por meio da família, da escola e da religião. Eles defendem que, quando essas instâncias falham, a presença da lei torna-se indispensável. “Se o pai e a mãe não deram uma educação adequada e o indivíduo ingressou no mundo do crime, ele precisa da lei. Sem lei, não há paz social”, resume.

O estudo também diferencia perfis de violência. Enquanto alguns criminosos atuam de forma mais pragmática e econômica, há aqueles classificados como extremamente violentos, envolvidos simultaneamente em homicídios e roubos.

A pesquisa analisa ainda a influência de facções criminosas no imaginário e na dinâmica do crime organizado. O Primeiro Comando da Capital (PCC), cujo lema é “Paz, Justiça e Liberdade”, também é associado à expressão “Pra Cadeia ou Cemitério”. Já o Comando Vermelho é conhecido pela expressão “Cadê o velório?”.

Outro fenômeno abordado é o chamado “Novo Cangaço”, caracterizado por ações ousadas e altamente organizadas, com um perfil criminoso distinto das facções tradicionais.

De acordo com o pesquisador, esse grupo demonstra uma lógica própria e um “olhar diferente” sobre o crime, indicando que novas dinâmicas e desafios ainda devem surgir nesse cenário. “Os próximos levantamentos trarão novas informações e aprofundamentos, ampliando o debate sobre a economia do crime e suas múltiplas conexões com a sociedade”, finaliza.

Da Redação

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