Suposto pedido de propina de vereadores chama a atenção de autoridades

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A Central Geradora Hidrelétrica (CGH) Rio São Francisco Verdadeiro é apontada como um empreendimento com potencial para contribuir com o desenvolvimento econômico de Toledo e até do Brasil. As ações vinculadas ao projeto, no entanto, devem respeitar a preservação ambiental e, sobretudo, buscar uma solução definitiva para o problema das enchentes registradas na conhecida Estrada da Usina.

A CGH Rio São Francisco está no centro das atenções desde o ano passado, quando veio à tona a denúncia de que os vereadores Edimilson Dias Barbosa (Dudu Barbosa) e Valdomiro Nunes Ferreira (Valdomiro Bozó) teriam se tornado réus por supostamente solicitarem R$ 300 mil em propina para aprovar um projeto de lei de interesse da empresa na Câmara Municipal.

Um novo capítulo do caso foi apresentado na última sexta-feira (30), durante a audiência de instrução e julgamento dos vereadores. Enquanto autoridades e testemunhas detalharam os fatos relacionados à CGH, os parlamentares e suas testemunhas de defesa sustentaram que o valor de R$ 300 mil não se trataria de propina, mas de um recurso destinado a melhorias no Parque Genovefa Pizzatto. A obra do Parque Urbano Lino Gotardo Pizzatto foi repassada à Emdur, com recursos do Município.

PROPOSTA – A proposta original, ainda em 2019, previa a construção do Parque do Rio São Francisco em toda a área plana do terreno, abrangendo aproximadamente 280 mil metros quadrados. O espaço também poderia ser explorado como atrativo turístico.

Na concepção inicial, a primeira fase do parque poderia ter sido entregue até o fim de 2021, com participação do Poder Público na implantação do Jardim Botânico e de outros projetos. O objetivo era preservar o meio ambiente e transformar a área em um espaço turístico e de lazer. No entanto, o projeto não avançou além do papel. As razões são apresentadas sob diferentes perspectivas pelos envolvidos: algumas estão documentadas, outras registradas em gravações, e há ainda aquelas que ficaram restritas a diálogos informais. O fato é que os vereadores alegam que os R$ 300 mil teriam como finalidade para melhorias do Parque Genovefa Pizzatto.

As oitivas tiveram início às 8h de sexta-feira e se estenderam até depois das 20h, com interrupção apenas para o almoço. Durante a audiência, foram colhidos depoimentos das testemunhas arroladas pelas partes, além de questionamentos realizados pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), pela defesa e pelo Judiciário.

Os vereadores são suspeitos de terem solicitado R$ 300 mil à empresa no dia 31 de outubro de 2024, como contrapartida para a aprovação de um projeto de lei de interesse da CGH. A ação penal foi instaurada por decisão da 1ª Vara Criminal de Toledo, expedida em 2 de agosto de 2025, atendendo a pedido da 4ª Promotoria de Justiça de Toledo, que denunciou os dois parlamentares pelo crime de corrupção passiva.

O promotor de Justiça substituto Dr. Rodrigo de Assumpção Araújo Azevedo, o advogado de defesa Luciano Katarinhuk e o juiz Murilo Conehero Ghizzi acompanharam os depoimentos e realizaram os questionamentos pertinentes.

O JORNAL DO OESTE traz, a partir desta terça-feira (2), os posicionamentos e os questionamentos das testemunhas, seguindo a ordem cronológica. Na edição de hoje, as oitivas – de maneira – resumida do ex-prefeito Beto Lunitti e do empresário Gilberto Allievi.

DIÁLOGO – O ex-prefeito de Toledo, Beto Lunitti, foi o primeiro a responder aos questionamentos das autoridades durante a audiência. Em razão de estar em processo de recuperação de saúde, ele encaminhou um requerimento na tarde de quinta-feira (29), formalizando a solicitação para prestar esclarecimentos.

Em seu depoimento, Beto Lunitti relatou que recebeu, inicialmente, uma comunicação do vereador Edimilson Dias Barbosa (Dudu Barbosa) alertando sobre possíveis irregularidades no processo de instalação da usina. Segundo o ex-prefeito, as informações indicavam que a obra não estava em conformidade com a legislação.

“As informações apontavam que a construção ocorreu de forma irregular em terreno público. A empresa não atendia à legislação de uso e ocupação do solo e, por consequência, a servidão também estava em desacordo”, afirmou.

Beto Lunitti destacou ainda que, à época, tinha a percepção de que os diretores da empresa se colocavam acima da lei, situação que gerou tensão em uma das reuniões. “Convidei o representante da empresa e o procurador-geral Mauri Refatti para uma conversa. O clima esquentou, o empresário se esquivava do cumprimento do ônus e não chegamos a nenhuma conclusão”, relatou.

Diante do impasse, o então prefeito notificou oficialmente a empresa por meio de ofício. Posteriormente, uma nova reunião foi realizada e, segundo Beto Lunitti, ele tomou conhecimento mais tarde de que o encontro havia sido gravado. Durante uma visita à área, Beto Lunitti afirmou que lhe foi apresentado o interesse na implantação do Parque. “Foi uma reunião para contextualizar a situação do Parque da Usina, que seria construído naquela região. A ideia era manter um Termo de Acordo, mas ele não foi assinado”, explicou.

Na condição de prefeito, Beto Lunitti encaminhou o Projeto de Lei nº 149/2024, datado de 23 de outubro de 2024, que previa contrapartidas a serem cumpridas pela empresa no futuro Parque da Usina. Segundo ele, a empresa não concordou com a implantação do Parque Urbano Lino Gotardo Pizzatto nem do Parque Genovefa Pizzatto.

“De junho a outubro daquele ano, cobrei do procurador uma solução para o problema. Também solicitei ao secretário de Planejamento que avaliasse o espaço territorial para definir valores e buscar uma saída”, disse. Era de conhecimento que a empresa já estava em funcionamento.

Durante a audiência, o promotor de Justiça questionou o fato de o ex-prefeito ter conhecimento das supostas irregularidades e, ainda assim, não tê-las formalizado por escrito. O juiz Dr. Murilo considerou contraditória a postura atual do ex-prefeito em relação ao que foi encaminhado à Câmara de Vereadores. Beto Lunitti respondeu que o processo, desde a reunião de junho até a elaboração do projeto de lei, foi conduzido pelo Departamento Técnico.

“Fizemos o esforço possível para promover ajustes”, afirmou.

O Ministério Público também questionou se o ex-prefeito tinha conhecimento de eventual pedido de propina, o que foi negado pelo ex-prefeito. Sobre a análise dos critérios de dimensionamento das vazões, ele disse que tomou conhecimento por meio dos anexos do Instituto Água e Terra (IAT). “Era um estudo complexo e eu, enquanto prefeito, não tinha formação técnica para isso”, explicou.

Questionado pelo advogado de defesa sobre a realização de audiência pública para discutir a instalação da usina, Lunitti confirmou que houve debate. “Em 2021, a usina estava em processo de construção”, lembrou. Ele também afirmou que os vereadores Valdomiro Bozó, Ademar Dorschmidt e Genivaldo Paes eram os que mais pressionavam pela execução da obra.

Ainda durante o depoimento, Beto Lunitti disse que só recentemente tomou conhecimento de que o empresário Gilberto gravava conversas de forma clandestina.

Ao ser questionado pela defesa se conhecia algum fato que desabonasse a conduta dos vereadores Valdomiro Bozó e Dudu Barbosa, Beto Lunitti respondeu negativamente.

Na sequência, o juiz Murilo iniciou seus questionamentos, buscando esclarecer os motivos do pedido para a construção dos dois parques, as razões pelas quais o Parque da Usina não foi executado e por que a usina entrou em funcionamento sem entregar benefícios à comunidade, entre outros pontos. Também perguntou se existia irregularidade, por qual motivo não executou a legislação? Beto Lunitti acreditava que as irregularidades seriam corrigidas. Conforme ele, sempre seguiu as orientações técnicas.

DIVERGÊNCIA – Após encerrar a oitiva do ex-prefeito Beto Lunitti, o empresário Gilberto Allievi apresentou o seu posicionamento e respondeu as perguntas das autoridades. Ele relatou que existia divergência entre as solicitações realizadas pelo Município. “A mudança do PL foi uma imposição do Município. Havia sido aprovada uma Lei para colocar uma tubulação. O ex secretário de Meio Ambiente Neudi Mosconi disse que queria fazer um lago, mas a Lei aprovou um tubo. A mudança do projeto foi monitorada em todos os tempos”.

Allievi menciono que um canal foi aberto, porém não era de interesse da empresa, e sim, foi uma imposição do Município. “A Lei prévia tubo, mas Mosconi queria um canal e foi tudo documentado. Inclusive, existem vários emails entre a engenharia da empresa com a equipe da Prefeitura que constava que havia a mudança no PL, na época era o prefeito Lucio de Marchi. Era uma plataforma sobre o tubo que iríamos utilizá-la para o nosso acesso e seria utilizada para o turismo. O início do PL começou na gestão de Lucio e teve continuidade na do Beto Lunitti. Duas gestões aprovaram esse PL. Tínhamos que pedir um ajuste administrativo; para o Meio Ambiente

foi a melhor coisa que ocorreu, porque teríamos que fazer outros trabalhos que iriam impactar”.

Gilberto mencionou que o Município agiu com má vontade e nunca nada funcionava. “Uma das reuniões foi bem traumática. Eu agradecia que o MP concordou que o projeto foi aprovado pelo IAT. Beto dizia que o contrato foi mal feito e deveríamos fazer além da nossa obrigação”.

Nesta reunião, o empresário Gilberto ponderou que Beto Lunitti disse que a Prefeitura deveria ser indenizada, pois a Usina estaria irregular e trata-se de uma situação para multar a empresa”.

O empresário relatou que sempre buscava informações na Prefeitura sobre a aprovação do projeto e para manter a empresa regular. Mas, a situação começou a ficar insustentável quando a Prefeitura passou a solicitar novos investimentos. A área que a usina utilizou a mais ficou avaliada cerca de R$ 100 mil e o Poder Público solicitava ações com montante superior.

O advogado de defesa disse que a usina estava operando e sendo rentável em média dois anos e meio e estaria funcionando de maneira irregular. “Estávamos tentando resolver. Inclusive, o promotor de Justiça Giovani Ferri e o IAT validaram que a mudança ajudou o meio ambiente, pois a usina resolveu os problemas das enchentes. O que me pegou foi o cinismo pelo dinheiro. BO Beto se comportou de maneira agressiva em uma das reuniões”.

O empresário Gilberto salientou que quando foi convidado para participar de uma reunião com o vereador Dudu Barbosa, pela sua experiência de vida, decidiu gravar o encontro. Contudo, ele afirmou que jamais imaginava que teria a solicitação de propina.

Ele também disse que vazou parte do áudio uma semana depois e as informações chegaram ao Ministério Público. “O principal objetivo era resolver tudo pelo diálogo e não precisar passar por esse constrangimento. Nós resolvemos um problema histórico para aquela região”. O empresário disse que sempre solicitaram os reajustes na Lei e nunca aceitaram as sugestões dos dois parques citados. Além disso, as propostas não foram documentadas e o diálogo tornou-se difícil com o passar dos tempos. Por isso, o empresário decidiu gravar algumas reuniões, inclusive na Câmara. “Se eu soubesse que iria acontecer aquilo, eu teria me preparado melhor para o momento”.

Da Redação

TOLEDO

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